Quem tem formação superior ganha praticamente o dobro da média dos demais em Rio Preto. Os trabalhadores com carteira assinada que concluíram o ensino superior tiveram remuneração média de R$ 3.382 no ano passado, 97% mais que o salário médio pago pelo mercado local no período: R$ 1.714.
É o que demonstra a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) 2011, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O levantamento revela, entre outros comportamentos do mercado de trabalho de Rio Preto, que a formação escolar influencia na remuneração do rio-pretense.
“As empresas precisam de talentos imediatos e por isso buscam profissionais já qualificados”, explica Karina Facina Costa dos Santos, docente da área de gestão de pessoas do Senac de Rio Preto. Ela afirma que investir em educação é fundamental para uma boa colocação no mercado de trabalho, o que inclui graduação, cursos técnicos profissionalizantes e cursos extras. “A preparação do trabalhador exige muito tempo”, diz.
Os profissionais com formação superior ocupam a segunda posição no ranking da empregabilidade, com um total de 21.727 pessoas. Entre os homens com formação superior, a melhor remuneração é daqueles na faixa etária de 50 a 64 anos, R$ 5.919. Na média geral, a renda é de R$ 4.122. Entre as trabalhadoras mulheres, a média geral é de R$ 2.891 e o maior valor pago é para aquelas que se encaixam na faixa com 65 anos ou mais, R$ 4.812.
A maior parte dos trabalhadores no mercado rio-pretense tem ensino médio completo. O universo completo de trabalhadores no município em 2011 era de 129.714 pessoas, das quais 63.447 concluíram o ensino médio, o que representa 48,91% do total. A ponta mais frágil reúne 123 pessoas analfabetas, o que significa 0,09% do total. Há mais homens analfabetos também, 105, contra apenas 18 mulheres.
A maior parte dos trabalhadores, os que concluíram o ensino médio, ganha, em média, R$ 1.375. Ainda que pareça estranho, os analfabetos não são os que ganham menos. Seu rendimento está na faixa de R$ 1.271. Quem tem a menor remuneração são os trabalhadores com ensino médio incompleto, com salário médio de R$ 1.185.
Mas não existe um movimento linear de crescimento salarial de acordo com a escolaridade do trabalhador. Do analfabeto para o ensino fundamental existe uma alta, que não se mantém se o profissional conclui o ensino médio. A diferença salarial mais forte é entre o trabalhador que não concluiu o ensino superior, que ganha R$ 1.917, e entre os que se graduaram, que recebem R$ 3.382. “À medida que se melhora o potencial da mão de obra o mercado de trabalho fica melhor, mas é um processo lento”, afirma o consultor de Recursos Humanos Valdir Gusmão. “Quantos anos o Brasil demorou para sair da inexistência de formação e ir para o ensino médio, como ainda estamos hoje, enquanto a moda é fazer uma pós-graduação?”
Além da escolaridade
Para Gusmão, a formação escolar é um dos fatores que interfere na remuneração, mas não o único. Ele conta que, antigamente, o foco era a função, ou seja, o trabalhador era remunerado de acordo com seu posto, mas hoje são três as competências. “O profissional precisa ter habilidade na função, conhecimento – que vem da formação acadêmica, e comportamento que prime pela cooperação e espírito de equipe.”
Mas, essa não é a única exigência do mercado. Para Karina, não basta ter qualificação, é necessário buscar uma atitude intraempreendedora. O termo, geralmente ligado a pessoas que abrem seus próprios negócios, está ligado aqui à iniciativa, inovação, apresentação de ideias e propostas que melhorem os processos das corporações. “Não adianta só se formar em algo, é preciso se empenhar e desenvolver capacidades comportamentais”, orienta.
Clique aqui e veja as tabelas completas da Rais 2011, por sexo, faixa etária e outras variações.
Setor de serviços é maior empregador em 2011
O setor de serviços continua sendo o maior empregador de Rio Preto, o que fortalece ainda mais seu perfil econômico. Dos 129.714 trabalhadores, 55.959 estão em algum ramo da prestação de serviços. A análise também mostra que houve um crescimento expressivo do setor, de 6,9%, entre 2010 e 2011. O número total passou de 52.304 para 55.959. Em seguida no ranking de mais oportunidades aparece o comércio, que reúne 37.029 pessoas, seguido pela indústria, com 21.764 trabalhadores. Os dois setores também cresceram de um ano para outro, 2,6% e 1,9%, respectivamente. Em 2010 o comércio tinha 36.056 trabalhadores e a indústria, 21.351.
“Os números apresentados por Rio Preto não destoam da realidade nacional, mas é muito importante ressaltar que em Rio Preto a economia está bem distribuída entre os diversos setores econômicos, o que contribui para certa estabilidade nos níveis de crescimento”, afirma o professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Joelson Gonçalves de Carvalho.
O setor extrativo mineral reúne o menor contingente de pessoas no mercado de trabalho local, 16. Além disso, passou por decréscimo, já que em 2010 eram 21 pessoas, o que mostra uma queda de 23,8%. O setor de serviços industriais de utilidade pública teve redução ainda maior no número de trabalhadores, passando de 472 para 325. Fazem parte dessa categoria profissionais das áreas de produção e geração de energia, água e Correios.
A avaliação da remuneração por setor de atividade mostra que a administração pública é o melhor empregador, já que o rendimento médio mensal é de R$ 3.919. O setor de serviços industriais de utilidade pública oferece a segunda melhor remuneração, R$ 3.202. A pior fica com o setor extrativo mineral, cujo salário é R$ 1.370. Indústria, construção civil, comércio e serviços tem remuneração média que oscila na faixa de R$ 1.418 a R$ 1.807.
Segundo Carvalho, o setor industrial em Rio Preto sempre apresentou participação relativa modesta para o Estado como um todo, mas seu caráter diversificado contribui para a manutenção ou até mesmo crescimento dos empregos mesmo em momentos de crises econômicas. “O perfil de média e alta tecnologia que se encontra nas indústrias locais ajuda a entender a maior remuneração se comparado com comércio e serviços que, em tese, demandam trabalhadores menos qualificados. Ou seja, o grau de qualificação tem peso maior que o tamanho da empresa quando analisamos a remuneração do empregado”, afirma.
Na guerra dos sexos, eles levam a melhor
A guerra dos sexos também acontece no mercado de trabalho de Rio Preto. Eles são a maioria e também recebem melhores salários que elas. De acordo com os dados divulgados pela Relação Anual de Informações Sociais (Rais) 2011, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Mais da metade da mão de obra rio-pretense é formada por trabalhadores do sexo masculino, 72.950, o que representa 56,24% do total. O restante do contingente é formado por 56.764 mulheres, o que significa 43,76%.
O perfil do trabalhador médio rio-pretense está na faixa etária de 30 a 39 anos, tem o ensino médio completo e atua no setor de serviços. Sua remuneração média é de R$ 1.714. O que difere a caracterização quando a análise considera homens e mulheres é apenas o salário. Enquanto eles recebem R$ 1.834 em média, elas ganham R$ 1.562. No ano anterior, as remunerações eram R$ 1.779 e R$ 1.511, respectivamente.
O privilégio do rendimento masculino sobre o de suas concorrentes é percebido até entre os profissionais com formação superior. Apesar das mulheres serem maioria neste segmento (são 13.058 trabalhadoras que terminaram a graduação em uma universidade ou faculdade, enquanto os homens somam 8.669 formados), o salário pago aos homens é maior. A renda média para o público masculino nesta categoria é de R$ 4.122, valor 42% superior ao pago às mulheres, que é de R$ 2.891.“Esse é um paradigma que precisa ser quebrado, mas pode-se levar um tempo para essa questão salarial se igualar”, afirma Karina Facina Costa dos Santos, docente da área de gestão de pessoas do Senac de Rio Preto.
Eles respeitam
Apesar das desigualdades, muitas mulheres ocupam cargos de chefia nas empresas de Rio Preto. É o caso da supervisora de produção Maria da Penha Costa Machado, 52 anos. Ela chefia uma equipe de 70 pessoas que trabalham na fabricação de produtos para cirurgia cardiovascular. Desse grupo 60 são homens. Ela diz que a relação com todos os funcionários é muito boa e que a diferença de gênero não é notada no dia a dia da carreira. “Os funcionários homens me respeitam, entendem que sou importante e não veem diferença”, conta.
Para ela, essa posição de respeito é motivo de gratificação e mostra que ela consegue liderar com mais eficiência. A biomédica também qualifica seu salário como adequado ao seu trabalho. Casada e mãe de dois filhos, um de 23 e outra de 18, Penha conta que o apoio do marido foi essencial para que conseguisse lidar com as responsabilidades da vida profissional e familiar. “A responsabilidade das coisas de casa nunca ficou só para mim e esse apoio foi fundamental para estar tranquila no trabalho, sem misturar as coisas”, disse.
ovens estudam para preparar carreira
Uma parcela dos jovens estudantes de Rio Preto já sabe a importância da formação escolar. A orientadora do projeto Pescar, Érika Morales Puga, que lida diariamente com jovens e adolescentes num trabalho de preparação para a carreira, diz que o jovem tem a noção de que é preciso fortalecer suas bases de conhecimento para obter um posicionamento profissional melhor, de mais qualidade e melhor remuneração, consequentemente. “Nosso foco é mostrar que o estudo é fundamental, que o sucesso profissional está ligado à educação”, afirma.
Segundo ela, existe uma falsa impressão de que os jovens só estão ligados a bens materiais, mas não é verdade, eles estão interessados sim em investir em sua formação e carreira. “O problema é que a educação está muito ruim e isso atrapalha o interesse”, afirma. Gabriel dos Santos tem 16 anos, cursa o segundo colegial, frequenta o Pescar à tarde e à noite faz curso técnico de eletrotécnica, uma rotina puxada, mas do tamanho da sua determinação.
Ele é um dos exemplos de quem é jovem, mas sabe o que quer. Sua meta é fazer faculdade de mecatrônica. “É cansativo, estressante, mas o estímulo da família e dos amigos ajuda”, diz. Aos 16 anos, Julia Caldas faz o segundo colegial e o Pescar. Ela já sabe que quer cursar hotelaria e por isso investe no inglês. “Sei que ainda preciso fazer mais, estudar mais, mas nem todos jovens sabem. Alguns se preocupam em ter apenas um emprego para comprar coisas.”
William Bruno Galdino, 16, concorda com Julia e diz as oportunidades estão disponíveis, mas que falta interesse. Ele cursa o segundo colegial, faz o Pescar e quer fazer faculdade de Audiovisual, mas antes disso vai investir num curso técnico para se especializar. “O principal meio é a educação, mas se está ruim, é possível conseguir oportunidades de outras formas.”
O estudante William Alexandre Oliveira da Silva, 15 anos, leva a sério os conselhos da mãe e por isso já sabe o que quer: fazer um curso de análise e desenvolvimento de sistemas ou engenharia da computação. “ O estímulo vem da minha mãe para estudar, me formar e ter uma profissão melhor. Também não adianta montar uma empresa sem conhecimento.”
Maioria tem 30 a 39 anos
Em relação à idade, a maior parte dos trabalhadores de Rio Preto se concentra na faixa de 30 a 39 anos: são 36.352 pessoas, de acordo com os números revelados pela a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) 2011, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Em seguida, aparecem os trabalhadores na casa de 40 a 49 anos, que totalizam 26.017. Nos extremos, pessoas com 65 anos ou mais, há um total de 1.207 trabalhadores, enquanto entre os dez e os 14 o número chega a apenas três trabalhadores.
O mercado de trabalho sinaliza a valorização do trabalhador que tem experiência. Quanto mais velho, melhor remunerado. A faixa de trabalhadores com idade entre 50 e 64 anos tem a maior remuneração média, R$ 2.274. Em seguida, duas categorias de trabalhadores, na faixa de 40 a 49 anos, e com 65 anos ou mais, dividem o ranking, com salário médio de R$ 2.095.
Os trabalhadores da faixa etária mais nova, de 10 a 14 anos, recebem menos, R$ 390,39.Entre os homens, a melhor remuneração está na faixa dos 50 a 64 anos, R$ 2.376. Já entre as mulheres, a maior remuneração é para quem tem 65 anos ou mais, R$ 2.562.
Número de empregos em Rio Preto aumentou 5,2%
O estoque de empregos em Rio Preto fechou o ano passado com um total de 129.714 vagas. Esse volume é 5,2% maior do que o observado em dezembro de 2010, quando estavam empregadas 123.238 pessoas. O crescimento do mercado de trabalho também fez aumentar a massa salarial no município. Em 2011, a remuneração paga à totalidade dos trabalhadores atingiu R$ 222,3 milhões por mês, volume 8,4% superior ao registrado em 2010, quando totalizou R$ 204,3 milhões.
A remuneração média do rio-pretense no ano passado foi de R$ 1.714, um aumento de 3% em relação ao valor de 2010, quando o rendimento era de R$ 1.663. O desempenho ficou abaixo de alguns índices de inflação, o que denota o achatamento do poder aquisitivo do trabalhador em 2011. O Índice de Preços ao Consumidor de Rio Preto (IPC-RP) fechou 2011 em 3,56%, pouco a mais do que o aumento salarial.
Já na comparação com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) e com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) as perdas foram ainda maiores, que já os índices fecharam em 6,07% e 6,50%, respectivamente. O raio-X do mercado de trabalho local pode ser feito a partir dos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) 2011, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Para o economista Hipólito Martins Filho, de fato houve uma perda do poder aquisitivo no ano passado. Isso porque o crescimento econômico não se deu no mesmo patamar dos anos anteriores. “Quando isto ocorre, os salários tendem a cair, já que a disponibilidade de mão de obra aumenta, sendo assim o espaço para o aumento de salário tende a estabilizar ou diminuir. A opção é controlar a inflação, uma das poucas opções para amenizar a perda do poder aquisitivo.”
Para a economista Emília de Toledo Leme, no entanto, não é possível afirmar com segurança que esse achatamento do poder aquisitivo foi linear. Ela afirma que é necessário existir um período de inflação maior e de ganhos menores e que também houve categorias que obtiveram aumentos reais, ou seja, superiores aos índices de inflação brasileiros. “É possível deduzir que, com o desaquecimento da economia, exista uma preocupação maior do mercado de trabalho com a manutenção do emprego e não com ganhos reais”, disse.
O rendimento médio do rio-pretense é menor do que o do trabalhador paulista. No Estado de São Paulo, o salário médio em 2011, era de R$ 2.170,17. De 2010 para 2011, o crescimento foi de 3,35% (R$ 2.099,73), o que mostra que o aumento local está dentro da média estadual.
Cesta básica
Além disso, não satisfaz as necessidades básicas dos trabalhadores, segundo Martins Filho. Prova disso é o valor da cesta básica coletado na cidade, que fechou agosto em R$ 831,51, praticamente a metade da renda média. Em 12 meses, a cesta subiu 20%, muito acima do valor dos salários. “A saída é ter um orçamento doméstico e acompanhar de forma rigorosa todos os gastos e não somente com a alimentação, fazer pesquisas e adotar novos hábitos de consumo”.
Experiências do iniciante e do ‘aposentando’
O estudante Bruno Ricardo Vitor, 24 anos, cursa o quarto ano de engenharia de produção e já está em seu terceiro emprego. Começou a trabalhar aos 19 e na empresa em que está foi efetivado há três meses, depois de fazer estágio. “Minha meta é crescer profissionalmente. Por isso pretendo fazer cursos de especialização, pegar firme no inglês e fazer pós-graduação.”
A renda atual, em torno de R$ 1,1 mil, é utilizada para pagar a faculdade e também os cursos extras. O primeiro começa no mês que vem, no Senac. “Rio Preto tem mercado, mas como em qualquer mercado competitivo, quem tem mais conhecimento aumenta as chances de conseguir uma vaga de emprego”, afirmou.
Na outra ponta do mercado de trabalho encontra-se Adelmo Cuginotti, gerente administrativo de uma indústria de Rio Preto. Aos 55 anos e faltando apenas três para se aposentar, ele não pretende parar de trabalhar tão cedo. “Não dá para parar e, além disso, trabalho é terapia”, afirma.
Cuginotti concluiu o ensino superior, o curso de contabilidade, e portanto tem uma remuneração superior à média, embora prefira não revelar quanto ganha. “Não dá para dizer que o salário nos deixa alegre, feliz, mas é muito melhor do que tantos outros”, afirma. Ele diz ainda que a qualidade de vida e os custos em Rio Preto compensam essa situação. “Cheguei a viver 12 anos em São Paulo porque a proposta era o dobro salarial daqui”, conta.
Para o gerente, o mercado de trabalho passou a ver o trabalhador de mais idade, na faixa dos 50, com mais carinho, e passou a respeitar requisitos como experiência, conhecimento e bagagem. “Teve uma época no Brasil que o trabalhador cinquentão era considerado um problema. Hoje, as pessoas de mais idade estão tendo mais oportunidades”, afirmou.
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